sexta-feira, 17 de julho de 2020

Dias felizes

(Praia das Furnas - Vila Nova de Mil Fontes
Foto: celine)

"É isso! Tão poucas coisas a dizer, tão poucas coisas a fazer, e o medo, certos dias, tão forte, de chegar ao fim horas antes de a campainha tocar para dormir, e pronto, nada mais a dizer, nada mais a fazer. Que os dias passam, e não voltam, toca para dormir e nada ou quase nada se disse, nada ou quase nada se fez."

(excerto de Dias Felizes, de Samuel Beckett)

terça-feira, 23 de junho de 2020

Frágil

(Islas Cíes, Galiza-Espanha - 2016
Foto:celine)


"Todos os dias digo, sussurrando,
mantém o equilíbrio. Tudo espreita,
tudo assusta, a vida inteira prende-te
de um frágil fio e de uma sorte injusta.
A tua vida não pode muito.
Não percas o pé. Mantém o equilíbrio."

(Amalia Bautista in Coração Desabitado,
apud Margarida Baptista,
blog "Imagens com letras dentro")


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Crepúsculo

(Parque Natural de Noudar
Foto:celine)

"Hemos perdido aun este crepúsculo.
Nadie nos vió esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caía sobre el mundo.

He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.

A veces como una moneda
se encendía un pedazo de sol, entre mis manos.

Yo te recordaba en el alma apretada
de esa tristeza que tú me conoces.

Entonces dónde estabas?
Entre qué gentes?
Diciendo qué palabras?
Por qué se me vendrá todo el amor de golpe
cuando me siento triste, y te siento lejana?

Cayó el libro que siempre se toma en el crepúsculo,
y como un perro herido rodó a mis pies mi capa.

Siempre, siempre te alejas en las tardes
hacia donde el crepúsculo corre borrando estatuas."

(Pablo Neruda in Veinte Poemas de Amor y Una Canción Desesperada)

terça-feira, 2 de junho de 2020

Contra o racismo!

CONTRA O RACISMO!

(Foto analógica: celine
Senegal, 2002)

"Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar, 
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olheia-a de um lado,
dou outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio."

(António Gedeão in Poesias Completas [1956-1967])

sexta-feira, 22 de maio de 2020

A sombra do silêncio

(Foto: celine - 26.03.2018)


"A Árvore do Silêncio

Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és a raiz:
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra:
Semeia o que calou.
Não faz sentido quem lavra
Se o não colhe do que amou.

Assim, sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá-las
Com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?)"

(Vitorino Nemésio in Antologia Poética)

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Hereditariedade

(Foto:celine)

Este não é o teu perfil.
É um perfil que não tem o teu adn.
Simplesmente, não é teu.

É meu.

O perfil, subtilmente desenhado em todos aqueles traços, é só meu.

O adn, das sombras e dos contrastes, só a mim pertence.
Aquelas fotografias são já história.
E essa história não é a tua.

(Mas não tem de, forçosamente, ser a minha...)

terça-feira, 5 de maio de 2020

De branco

(Foto: celine)

"Desce em folhedos tenros a colina:
- Em glaucos, frouxos tons adormecidos,
Que saram, frescos, meus olhos ardidos,
Nos quais a chama do furor declina...

Oh vem de branco, - do imo da folhagem|
Os ramos, leve, a tua mão aparte.
Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,
Reflectir-te virgem a serena imagem.

De silva doida uma haste esquiva
Quão delicada te osculou num dedo
Com um aljôfar cor de rosa viva!...

Ligeira a saia... Doce brisa impele-a...
Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo...
Alma de sylfo, carne de camélia..."

(Camilo Pessanha in Clepsydra)