segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Sob o Signo do Branco II


(Foto: celine)

"A noite quebra as lanças uma a uma
na brancura dos muros e da espuma.

O dia apaixonadamente branco
cai ferido por um dardo no flanco."

(Eugénio de Andrade, "Mitologia" in Ostinato Rigore)

 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Sob o Signo do Branco I


(Foto: celine)

"vento branco de outono -
será que parte com ele
o perfume da última flor?"

(Matsuo Bashô, O Eremita Viajante)



 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Uma bola colorida

(Costa Vicentina - Portugal
Foto: celine)

"O Manel tinha uma bola
Mas por falta de atenção
Lá deixou ele ir a bola
Presa nos dentes do cão

Olha a bola Manel
Olha a bola Manel
Foi-se embora, fugiu (...)"

(Canção infantil, letra e música de José Barata Moura)


Uma bola de plástico colorida veio a rolar na areia da praia, impelida pela brisa quente do final de tarde.

Parou junto de um chapéu de sol, também ele colorido, de uma família com uma criança.

Como ninguém lhe prestou atenção, a bola recomeçou a rolar, pela areia fora, e parou junto de um segundo chapéu de sol, de um grupo de amigos mas sem qualquer criança.

Nenhum indivíduo do grupo reparou, igualmente, na bola, e lá tornou ela a rolar, desta feita, em direcção ao mar.

Nesse instante, a criança do primeiro chapéu de sol reparou na bola colorida e correu atrás dela. Apanhou-a e veio a brincar com ela até à areia seca.

Criança e bola adoptaram-se, mutuamente. 

Talvez a bola venha a ser uma bola feliz entre as mãos daquela criança...


"Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida.

Que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança."

(Excerto do poema "Pedra Filosofal", de António Gedeão)

 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Dias felizes

(Praia das Furnas - Vila Nova de Mil Fontes
Foto: celine)

"É isso! Tão poucas coisas a dizer, tão poucas coisas a fazer, e o medo, certos dias, tão forte, de chegar ao fim horas antes de a campainha tocar para dormir, e pronto, nada mais a dizer, nada mais a fazer. Que os dias passam, e não voltam, toca para dormir e nada ou quase nada se disse, nada ou quase nada se fez."

(excerto de Dias Felizes, de Samuel Beckett)

terça-feira, 23 de junho de 2020

Frágil

(Islas Cíes, Galiza-Espanha - 2016
Foto:celine)


"Todos os dias digo, sussurrando,
mantém o equilíbrio. Tudo espreita,
tudo assusta, a vida inteira prende-te
de um frágil fio e de uma sorte injusta.
A tua vida não pode muito.
Não percas o pé. Mantém o equilíbrio."

(Amalia Bautista in Coração Desabitado,
apud Margarida Baptista,
blog "Imagens com letras dentro")


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Crepúsculo

(Parque Natural de Noudar
Foto:celine)

"Hemos perdido aun este crepúsculo.
Nadie nos vió esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caía sobre el mundo.

He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.

A veces como una moneda
se encendía un pedazo de sol, entre mis manos.

Yo te recordaba en el alma apretada
de esa tristeza que tú me conoces.

Entonces dónde estabas?
Entre qué gentes?
Diciendo qué palabras?
Por qué se me vendrá todo el amor de golpe
cuando me siento triste, y te siento lejana?

Cayó el libro que siempre se toma en el crepúsculo,
y como un perro herido rodó a mis pies mi capa.

Siempre, siempre te alejas en las tardes
hacia donde el crepúsculo corre borrando estatuas."

(Pablo Neruda in Veinte Poemas de Amor y Una Canción Desesperada)

terça-feira, 2 de junho de 2020

Contra o racismo!

CONTRA O RACISMO!

(Foto analógica: celine
Senegal, 2002)

"Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar, 
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olheia-a de um lado,
dou outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio."

(António Gedeão in Poesias Completas [1956-1967])