terça-feira, 6 de julho de 2021

 

(Foto: celine)


"(...) No comboio vinha a pensar em como seria bom seria bom se houvesse algum sítio onde pudéssemos mandar limpar e restaurar a cabeça. Cortá-la - bem, talvez isso fosse um bocado violento. Apenas separá-la do corpo e entregá-la num hospital universitário, como se fosse uma trouxa de roupa suja. "Trate-me disto, por favor", diríamos. E a restante parte de nós passaria calmamente três ou quatro dias ou uma semana a dormir enquanto o hospital tratava de fazer uma limpeza à nossa cabeça e deitar fora o lixo. Sem voltas na cama nem sonhos. (...)" 

(Yasunari Kawata, O Som da Montanha)



(Foto:celine)


"Podes interrogar a papoila
mas a papoila
nada responde"


(José Tolentino Mendonça, "A Papoila e o Monge" in A Noite Abre Meus Olhos)


 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

(Foto: celine)

"AS TRÊS PARCAS


As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.

Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.

E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério

Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado."

(Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Poética I)


 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

(Dia Mundial do Livro)

(Foto: celine)

    "Como um painel, soerguendo-se da névoa marinha, um busto vermelho, carcomido, a boca hiante, de um mistério vazio. A meus pés, um exército de formigas-negras procura, num árido frenesim, o caminho para a pedra. A orla branca de espuma, as vagas que rolam violentas, impedem o acesso do negro exército de insectos. 
    Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
    «Onde está a esperança?», alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém gritara, logo fora varrido pelo vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro». Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
    Cansara-me de fitar a carcaça da pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma."

(António Ramos Rosa, "A Esperança do Livro" - "Quando o Inexorável" in Antologia Poética)



 


sábado, 6 de março de 2021

(Foto: celine)

A palavra é curva Nunca atinge
o alvo Só o silêncio
é recto
Mas a chama de um e de outro
limpa a lepra do tempo
e descobre a fonte branca
como o desenho latente que na página respira".

"António Ramos Rosa in "LÂMPADAS COM ALGUNS INSECTOS")

 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

DE ONDE VEM A COR? (VII)

(Foto: celine)


"As grandes searas
sacudirão a crina,
a luz de setembro
tombará dos olmos,
a espuma do vinho
extinguir-se-á
como lume breve - 

só então a neve..."

(Eugénio de Andrade, "Antes da Neve" in Ostinato Rigore)





 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

(Foto: celine)


"I cried when the moon was murmuring to the birds:
'Let peewit call and curlew cry when they will,
I long for your merry and tender and pitiful words,
For the roads are unending, and there is no place to my mind. '
The honey-pale moon lay low on the sleepy hill,
And I fell asleep upon lonely Echtge of streams.
No boughs have withered because of the wintry wind;
The boughs have withered because I have told them my dreams.

I know of the leafy paths that the witches take
Who came with their crowns of pearl and their spindles of wool,
And their secret smile, out of the depths of the lake;
I know where a dim moon drifts, where the Danaan kind
Wind and unwind their dances when the light grows cool
On the island lawns, their feet where the pale foam gleams.
No boughs have withered because of the wintry wind;
The boughs have withered because I have told them my dreams.

I know of the sleepy contry, where swans fly round
Coupled with golden chains, and sing as they fly.
A king and a queen are wandering there, and the sound
Has made them so happy and hopeless, so deaf and so blind
With wisdom, they wander till all the years had gone by;
I know, and the curlew and peewit on Echtge of streams.
No boughs have withered because of the wintry wind;
The boughs have withered because I have told them my dreams."

(William Buttler Yeats, "The Withering of the Boughs" in Os Pássaros Brancos e outros poemas)