quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

(Foto: celine)

"(...) O tom de uma cena que representamos em nossas vidas é largamente determinado pela luz projectada do alto de nós. Enquanto electricista-mor, o céu fornece uma infindável variedade de efeitos de iluminação às nossas acções, ajudando ate a moldar as emoções que as acompanham. Há o vagaroso obscurecimento do crepúsculo para a troca de intimidades, a luz diluviana de uma manhã primaveril para sentirmos irrazoável deleite, o negrume da noite quando nenhuma luz cai do céu e nos tornamos vítimas das nossas próprias fantasias, a luz cinzenta, indiferente do céu de verão, um incitamento à indolência. Como podemos nós dizer até que ponto foram as nossas acções determinadas pela luz que nos envolvia enquanto as executávamos? Mas esses efeitos indirectos empalidecem ao lado do insuperável espectáculo do próprio céu enquanto este os vai produzindo. Em geral concorda-se que as visões mais surpreendentes e grandiosas que um ser humano consegue imaginar têm lugar no céu. É uma mera questão de olhá-lo; o céu há-de cumprir.
(...) Um pesadelo recorrente: a atmosfera da Terra escapou para o espaço, e nós vemos que o céu se tornou permanentemente negro. (...)"

(Paul Bowles, Viagens)   

 

(Foto: celine)

"1 
No espaço de um relâmpago
os olhos reflectem os navios

2 
O silêncio brilha acariciado.

3 
O silêncio é de todos os rumores 
o mais próximo da nascente.

4 
Só água era, e sem memória.

5 
Claridade sem repouso, ó claridade,
aguda nos juncos, nas pedras rasa.

6
No ardor dos cardos
que o vento faz casa.

7 
Da pedra ao sal, do sal à espuma,
amo a pobreza e a brancura."

(Eugénio de Andrade, "As nascentes da ternura" in Ostinato Rigore)

 


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020


Sob o Signo do Branco IV

(Foto: celine)

Serpa, 1 de Agosto de 2020.
O Alentejo é (ainda) um território admiravelmente branco.


"Oh, os ramos do verão -

onde as cigarras
ou a cal

queimam
lentamente o coração."

(Eugénio de Andrade, "Acorde Perfeito" in Ostinato Rigore)


 


Sob o Signo do Branco III

(Foto: celine)

(No dia 5 de Setembro de 2019, a cidade de Aveiro acordou sob um céu fulvo, salpicada por uma morrinha de cinzas -rescaldo dos fogos intensos que lavraram na zona florestal de Macinhata do Vouga.)


"Oh anda ver
uma bola de neve
a arder"

Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho)

 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Sob o Signo do Branco II


(Foto: celine)

"A noite quebra as lanças uma a uma
na brancura dos muros e da espuma.

O dia apaixonadamente branco
cai ferido por um dardo no flanco."

(Eugénio de Andrade, "Mitologia" in Ostinato Rigore)

 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Sob o Signo do Branco I


(Foto: celine)

"vento branco de outono -
será que parte com ele
o perfume da última flor?"

(Matsuo Bashô, O Eremita Viajante)



 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Uma bola colorida

(Costa Vicentina - Portugal
Foto: celine)

"O Manel tinha uma bola
Mas por falta de atenção
Lá deixou ele ir a bola
Presa nos dentes do cão

Olha a bola Manel
Olha a bola Manel
Foi-se embora, fugiu (...)"

(Canção infantil, letra e música de José Barata Moura)


Uma bola de plástico colorida veio a rolar na areia da praia, impelida pela brisa quente do final de tarde.

Parou junto de um chapéu de sol, também ele colorido, de uma família com uma criança.

Como ninguém lhe prestou atenção, a bola recomeçou a rolar, pela areia fora, e parou junto de um segundo chapéu de sol, de um grupo de amigos mas sem qualquer criança.

Nenhum indivíduo do grupo reparou, igualmente, na bola, e lá tornou ela a rolar, desta feita, em direcção ao mar.

Nesse instante, a criança do primeiro chapéu de sol reparou na bola colorida e correu atrás dela. Apanhou-a e veio a brincar com ela até à areia seca.

Criança e bola adoptaram-se, mutuamente. 

Talvez a bola venha a ser uma bola feliz entre as mãos daquela criança...


"Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida.

Que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança."

(Excerto do poema "Pedra Filosofal", de António Gedeão)