quarta-feira, 6 de janeiro de 2021


Sob o Signo do Branco V

(Foto: celine)

"(...)
Sem palavras, uma palavra o anima
ao fim da primeira silenciosa descida.
Depois a brancura rodeia-o como uma capa
de uma bailarina.
Mas ele percorre um corpo
e de todos os sulcos
(branco no branco)
outro corpo nupcial descreve.
(...)"

(António Ramos Rosa, "O Esquiador" (excerto) in Antologia Poética)

 

(Foto: celine)

"(...) O tom de uma cena que representamos em nossas vidas é largamente determinado pela luz projectada do alto de nós. Enquanto electricista-mor, o céu fornece uma infindável variedade de efeitos de iluminação às nossas acções, ajudando ate a moldar as emoções que as acompanham. Há o vagaroso obscurecimento do crepúsculo para a troca de intimidades, a luz diluviana de uma manhã primaveril para sentirmos irrazoável deleite, o negrume da noite quando nenhuma luz cai do céu e nos tornamos vítimas das nossas próprias fantasias, a luz cinzenta, indiferente do céu de verão, um incitamento à indolência. Como podemos nós dizer até que ponto foram as nossas acções determinadas pela luz que nos envolvia enquanto as executávamos? Mas esses efeitos indirectos empalidecem ao lado do insuperável espectáculo do próprio céu enquanto este os vai produzindo. Em geral concorda-se que as visões mais surpreendentes e grandiosas que um ser humano consegue imaginar têm lugar no céu. É uma mera questão de olhá-lo; o céu há-de cumprir.
(...) Um pesadelo recorrente: a atmosfera da Terra escapou para o espaço, e nós vemos que o céu se tornou permanentemente negro. (...)"

(Paul Bowles, Viagens)   

 

(Foto: celine)

"1 
No espaço de um relâmpago
os olhos reflectem os navios

O silêncio brilha acariciado.

O silêncio é de todos os rumores 
o mais próximo da nascente.

Só água era, e sem memória.

Claridade sem repouso, ó claridade,
aguda nos juncos, nas pedras rasa.

6
No ardor dos cardos
que o vento faz casa.

Da pedra ao sal, do sal à espuma,
amo a pobreza e a brancura."

(Eugénio de Andrade, "As nascentes da ternura" in Ostinato Rigore)

 


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020


Sob o Signo do Branco IV

(Foto: celine)

Serpa, 1 de Agosto de 2020.
O Alentejo é (ainda) um território admiravelmente branco.


"Oh, os ramos do verão -

onde as cigarras
ou a cal

queimam
lentamente o coração."

(Eugénio de Andrade, "Acorde Perfeito" in Ostinato Rigore)


 


Sob o Signo do Branco III

(Foto: celine)

(No dia 5 de Setembro de 2019, a cidade de Aveiro acordou sob um céu fulvo, salpicada por uma morrinha de cinzas -rescaldo dos fogos intensos que lavraram na zona florestal de Macinhata do Vouga.)


"Oh anda ver
uma bola de neve
a arder"

Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho)

 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Sob o Signo do Branco II


(Foto: celine)

"A noite quebra as lanças uma a uma
na brancura dos muros e da espuma.

O dia apaixonadamente branco
cai ferido por um dardo no flanco."

(Eugénio de Andrade, "Mitologia" in Ostinato Rigore)

 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Sob o Signo do Branco I


(Foto: celine)

"vento branco de outono -
será que parte com ele
o perfume da última flor?"

(Matsuo Bashô, O Eremita Viajante)